Crônicas de um ponto de ônibus #8 Frango assado

Se tem uma coisa que eu detesto é sair de casa pra ir em um lugar distante fazer uma coisa que não vai levar nem cinco minutos. E esse foi o dia: o último dia em que eu poderia pegar os convites da minha colação de grau – que depois descobri que eram totalmente inúteis pois não era obrigatório entrar com convite, e então por que raios nos fizeram ir buscar como se fosse uma obrigação? Vai entender.

Nesse dia eu fui com o meu namorado. Quase duas horas de ônibus pra ir, a claustrofobia dele atacando num ônibus extremamente vazio e só cinco minutos para atingir o objetivo depois de chegar ao local.

O que fez tudo isso valer a pena foi a volta. Nesse dia eu estava na casa dele, era uma terça-feira, e eu disse que seria uma boa se levássemos algo para o jantar, mesmo não fazendo ideia do que poderíamos encontrar aquele horário. E então, eu lembrei que um mercado perto da faculdade, e perto também de onde eu trabalhava, fazia frango assado praticamente 24h por dia. Compramos o frango e fomos para o ponto de ônibus, que fica exatamente em frente meu antigo emprego.

O frango estava quentinho e o cheiro estava maravilhoso, se alastrando incrivelmente pelo local onde estávamos. Então uma pessoa começou a comentar “nossa, isso é cheiro de frango assado?” e a outra respondeu “com certeza, e é muito bom por sinal”. Nisso, os comentários continuaram se estendendo, pois o cheiro do frango deve ter chegado longe. E o mais engraçado era que os dois gordinhos, eu e meu namorado, é que estavam com o frango, total alvo de piada de “gordices”. Nós ouvíamos os comentários e começávamos a rir, o Carlos, inclusive, abanava a embalagem com a intenção de que o cheiro fosse mais longe ainda.

E o pior de tudo, ou melhor, é que o ônibus estava demorando e o ponto ficando cada vez mais cheio. Dei a ideia de irmos para o ponto anterior, era o que eu fazia pra poder pegar o ônibus mais vazio e ir sentada até em casa. Fomos até o ponto, o cheiro do frango foi embora conosco e logo o ônibus veio, e o mais engraçado é que grande parte das pessoas que estavam no ponto e que estavam comentando sobre o frango entraram no mesmo ônibus em que nós estávamos. Ou seja: os comentários continuaram durante todo o caminho por causa do cheiro.

Pena que aquelas pessoas só sentiram o cheiro do frango, o que era um pouco de maldade já que estavam voltando pra casa depois de um dia de trabalho e, muito provavelmente, sentindo fome. Porque olha… eu posso dizer que aquele frango era o melhor frango assado do mundo.

Crônicas de um ponto de ônibus #7 Mendigo armado

Ultimamente eu tenho tido alguns problemas em pegar ônibus, e um deles é realmente não pegar ônibus. Pra quem não sabe, recentemente eu me formei e também me demiti do trabalho, mas isso fica para outra hora. Porque numa dessas ocasiões em que eu quase nunca pego ônibus aconteceu uma coisa que eu fiquei tão chocada e com medo que nunca rezei tanta vezes seguidamente na minha vida toda.

Estava eu, linda e bela, no ponto de ônibus num sábado à tarde. Às vezes tenho medo de pegar ônibus aqui perto de casa porque sempre há muitos boatos sobre assaltos e outras coisas ruins que acontecem quando você fica esperando o ônibus. Mas tento sempre ter em mente que nada irá acontecer e que pegarei o ônibus em segurança, só que parece que nessas poucas vezes em que eu tenho a necessidade de pegar um ônibus eles nunca vem. Aliás, eles vem, mas são todos aqueles que não me servem e às vezes eu acho mais fácil ir andando até o terminal rodoviário do que ficar esperando, porém isso nunca acontece porque sempre me resta aquele pouquinho de esperança de que logo, logo o ônibus vai aparecer. Mas também nunca acontece.

Eu já estava há um tempo no ponto. Não havia pessoas e nem ônibus passando. Até que reparei num senhorzinho atravessando a avenida com seu cachorro. Logo percebi pelas roupas e pela sua aparência ao longe que era um morador de rua. Ele atravessou e ficou olhando para o canal que tem na rua da frente por um tempo. Achei estranho, até pensei que ele poderia estar pensando em se jogar, ou pescar, ou sei lá o que as pessoas fazem quando ficam admirando um canal de esgoto a céu aberto. E depois de toda essa observação no canal, ele abriu a bolsa que carregava e tirou um facão, mas era um facão mesmo, tipo aqueles que as pessoas usam em canaviais, e jogou na grama. Logo em seguida ele tirou uma arma. Sim, da distância em que eu estava eu vi claramente que era uma arma. Não sou boa entendedora dos nomes, mas era uma arma.

Eu entrei em choque e comecei a rezar loucamente a oração do “Santo Anjo”. Não que eu seja devota ou tenha alguma religião em específico, mas acredito que quando você pensa em coisas boas, coisas boas acontecem, e que quando você pede proteção alguém no universo, por mais ocupado que esteja, talvez te ouça e esteja ali olhando por você para nada de pior acontecer.

Logo depois de jogar as coisas no chão,  o mendigo entrou no canal e o cachorro ficou na margem esperando. E de tanto eu rezar o ônibus apareceu e eu entrei agradecendo aos céus por não ter acontecido nada. Nem sei se realmente era uma arma, mas tenho certeza de que era quando vi, e nem sei também se ela estava carregada ou se o senhorzinho iria fazer algum mal à alguém. Seja lá o que ele foi fazer dentro do canal eu espero que ele esteja bem e que não utilize tais armas para fazer mal à algum ser vivo.

Nunca tive experiência com armas e, por sorte, uma única vez fui abordada por um assaltante, mas nada aconteceu. A questão é que hoje em dia se vê tanta coisa na TV e nos jornais que é difícil saber quem são as pessoas e quais são suas intenções. Então, por aquele mendigo, eu apenas rezo.

Crônicas de um ponto de ônibus #6 Estragando despedidas

Uma das formas mais eficazes de se iniciar um diálogo com um estranho qualquer é pedir informação. Você está lá sozinho e de repente uma pessoa se aproxima e alguns minutos depois ela se vira para você, pede licença e então pergunta sobre alguma dúvida relacionada ao ônibus. Mas para algumas pessoas não basta apenas se saciar com a resposta do outro, a conversa não acaba no agradecimento, pois ela sente a necessidade de continuar, e nem sempre isso é bem vindo.

Eu nunca fui o tipo de pessoa mal educada, muito menos aquele tipo que responde com cara feia. Eu, muitas vezes, estou apenas acompanhada dos meus fones de ouvido, e geralmente, quando percebo que alguém se aproximou e movimentos labiais foram feitos, retiro os fones e digo “oi?” num tom para que a pessoa possa repetir o que disse. Mas nessa segunda-feira de férias, em que eu estava acompanhada do meu namorado, durante nossa conversa um senhor se aproximou e perguntou para qual terminal rodoviário nós estávamos indo. Respondi educadamente e ali encerraria o assunto, mas o homem continuou falando sobre o tempo perdido para ir de uma cidade para outra, sobre o trânsito, sobre as condições da nossa cidade, turismo, blablabla. Quando vi, meu namorado e ele estavam falando sobre política. Política não é um assunto que me interessa tanto, não é pelo fato de eu não ser patriota ou de eu não me importar com o que acontece o país, mas o fato é que quando vou à urna registrar meu voto eu tenho toda a consciência do mundo de para quem meu voto está sendo destinado. É claro que é um ato bacana você compartilhar pensamentos e opiniões, e fazer com que pessoas que tenham a cabeça fechada ou opiniões contrárias possam entender o nosso lado e até mesmo vir conosco, mas não numa segunda-feira de despedida, não enquanto eu estava com meu namorado.

O mais engraçado é que quando ele me leva ao ponto de ônibus para eu vir para casa, ultimamente, eu deixo passar pelo menos uns três ônibus até nós encerrarmos qualquer assunto que seja e daí então, finalmente, nos despedimos. E nesse dia, logo antes do senhor-falante-com-bafo-de-cerveja chegar, eu tinha deixado um ônibus passar por brincadeira. E justo no momento em que deixei passar, eu e meu namorado trocamos de lugar nos banquinhos do ponto, e foi justamente nessa maldita hora que o senhor se aproximou e sentou ao meu lado.

Eu não me importo com determinadas conversas ou com pessoas estranhas, mas me incomodo pelo fato do senhor que falava demais estar baforando constantemente aquele odor de cerveja na minha cara, e me incomodando mais ainda o fato dele cruzar e descruzar as pernas constantemente, e nessa meia ação acabar tocando a minha coxa e sempre pedir desculpas pelo ocorrido. Meu namorado percebeu e me puxou mais para perto, porém não adiantou. Lancei alguns olhares de reprovação para ele, para que encerrasse o assunto, mas naquela altura do campeonato seria impossível virar para o homem e dizer: “senhor, me desculpe, mas eu quero conversar com a minha namorada”. Eu já estava furiosa, e a cada minuto desejava que o ônibus viesse logo, pois não bastasse o bafo de cerveja o homem ainda acendeu um cigarro, ele foi educado me perguntando se eu me importava, mas eu iria dizer o quê? “Sim, eu me importo, me importo mais ainda pelo senhor não calar essa maldita boca.” Mas, voltando: eu sou educada. Suspirei fundo, olhei a paisagem, desliguei meu cérebro a ponto da conversa entre eles entrar e sair pelos meus ouvidos sem causar transtorno algum.

E num passe se mágica, praticamente milagroso, o ônibus apontou, e por incrível que pareça, o homem não parava de falar e não se tocava de que eu queria me despedir do meu namorado. Fingi que não estava ouvindo e nem vendo nada, e então abracei e beijei meu namorado. Ele sussurrou no meu ouvido “se arrependeu de não ter pegado o ônibus, né?”, ri e afirmei, era totalmente verdade, embora minha intenção fosse apenas ficar um pouco mais com ele. A questão é que, quando me virei, o homem continuou falando e então meu namorado falou: “amor, eu te amo, viu?”. Nós estamos namorando há pouco tempo, mas é como se fossem milhares de anos, e aquela foi a primeira vez que ele proferiu aquelas palavras para mim. E o pior de tudo: aquele homem estranho e idealista não calava a boca e eu não consegui responder nada, simplesmente nada. Sim, eu fiquei sem ação, ainda estava furiosíssima, e tinha sido uma das nossas “primeiras vezes”, e na frente de um estranho ainda por cima, o que eu poderia dizer? Eu sei que deveria ter respondido de volta, era uma das coisas que eu queria ter dito há tempos, mas não daquele jeito, não naquela situação.

A questão é que às vezes as pessoas querem conversar, trocar ideias, mas não conseguem abrir os olhos e enxergar o que está acontecendo à volta naquele momento, que geralmente é o que pode ou não definir se você deve ou não iniciar um diálogo com uma pessoa estranha.

Interesse

Eu não escrevo há meses. Isso me deixa um pouco chateada porque pela milésima vez quebrei a promessa que fiz comigo mesma: nunca parar de escrever. Mas a questão não é essa, não são as promessas, são os sentimentos que são expostos a cada palavra que eu digito. Foram quatro meses, e acredite… quatro meses é o bastante pra acumular muita coisa a ponto de sentir que a qualquer momento você possa surtar.

É verdade que o ócio nos deixa mais “desocupados”, mais pensantes, mas nada disso interferiu nas noites em que eu deitei a cabeça no travesseiro e minha mente parecia um liquidificador ruidoso com o botão de desligar quebrado, me deixando incapaz de simplesmente puxá-lo da tomada.

O assunto quase sempre será o mesmo: as pessoas. Me desculpem, mas me incomodo. Me incomodo por não poder falar sem parar tudo o que eu penso, tudo o que eu preciso dizer sem me sentir mal. É bom por pra fora, se sentir leve, mas ainda existe a consciência de que alguém pode sair muito mal nessa história, e muitas vezes pode ser você, no caso, eu. Sinceridade é uma coisa minha, não consigo medir palavras, se você quer a verdade, de mim sempre terá a verdade. E isso me leva a pensar numa coisa recente: interesse.

Fico me perguntando por que as pessoas tem tanta necessidade em se mostrarem totalmente hospitaleiras e compreensivas, sendo que no final, elas querem apenas alguma coisa sua em troca, e quando elas conseguem, é claro, pulam fora. Eu fico inconformada com isso. Eu digo pra mim mesma o quão ruim eu sou como pessoa, mas quando eu gosto de alguém e quero o bem de determinado ser, eu me esforço pra ser a melhor, e não é um esforço falso só pra pessoa ver que eu gosto dela, é real, sentimentos ainda são reais, pelo menos os meus são. E novamente me entristeço em continuar acreditando que existem pessoas que pensam igual à mim, e que realmente tenham algum sentimento recíproco. Pena que no fim é tudo interesse. Pena.

Eu poderia citar nomes, poderia citar situações, mas isso melhoria o quê? Talvez se a pessoa lesse ela poderia entender, ou ficar brava, ou parar de falar comigo. Nessa altura do campeonato não importa. Uma coisa que eu não tolero é decepção, não guardo rancor nem mágoa, mas as memórias sempre estarão lá, e quando eu me lembrar irei continuar decepcionada.

Hoje eu não acredito mais que as pessoas mudem. Elas são o que são, existem pessoas feitas para pessoas, pena que eu sempre encontro com as erradas.

Eu tenho tanta, mas tanta coisa pra falar que eu poderia virar a noite aqui, reclamando, agradecendo, apenas contando, mas agora eu só quero dizer isso: interesse é pior do que desinteresse, pelo menos um deles é, no fundo, verdadeiro.

Quinta à noite

Estávamos deitados de lado, um olhando para outro, conversando sobre devaneios da vida. Até aquele momento, já haviam passado exatamente cinco horas desde que eu havia chegado a sua casa. Como de costume, me recebia com um simples beijo e logo íamos fazer o jantar. Discutíamos sobre as notícias do dia, o que passava na TV e em nossas vidas. Com a refeição pronta, jantávamos e conversávamos mais. Era ótimo, sempre fluía.

Com o passar das horas, todos da casa se recolhiam para dormir. Decidi tomar um banho rápido e logo em seguida ele foi também. E aquele, então, era o momento em que estávamos deitados na cama conversando mais ainda.

Só de saber que ele estava ao meu lado meu interior já estremecia, era estranho mas era bom. Eu sentia que algo estava acontecendo mesmo com um simples olhar que ele me lançava enquanto cozinhava, por exemplo.

Ele me tocava nas mãos, nos braços, me pegou pela cintura e quando percebi já estava envolta em seus braços sentindo seu calor junto ao meu. Me beijou profundamente e disse:

– Lembra aquele dia em que eu te beijei pela primeira vez no sofá? – dei um riso e fiz que sim com a cabeça, então ele continuou – Você estava louca pra me beijar, não é?

Então eu retruquei:

– Não, senhor! Quem disse isso?

E ele rebateu:

– É claro que estava, você me beijou com vontade!

Não consegui conter o riso mas me mantive firme:

– Beijo se dá com vontade, não é?

Ele sorriu e me beijou com mais vontade ainda.

Quando percebi suas mãos já corriam loucamente pelo meu corpo e ele sussurrava ao meu ouvido o quanto me queria naquele momento. Eu já me deixava levar sem força alguma, me fazia sentir em êxtase, era a melhor sensação do mundo. Ele dizia ao meu ouvido o quanto queria me possuir com a boca e era uma pena que meus dias vermelhos ainda estivessem dando “Olá!”, mas não me poupava de carícias com as mãos.

Tirou minha roupa de cima e abocanhou meu seios, era maravilhoso. A forma como me olhava me fazia desejá-lo ainda mais. Logo me vi obrigada a fazer o que mais queria naquele momento: tê-lo em minha boca. Não demorei muito e lá estava eu com toda vontade abocanhando a obra prima de deus. Seus gemidos me deixavam cada vez mais excitada e desejando tê-lo dentro de mim.

Pouco depois o senti puxando-me pelos cabelos e me deitando na cama. Lançou minhas pernas em seu peito e beijou com ternura meus pés fazendo-me rir. Com delicadeza introduziu-se dentro de mim. Era maravilhoso, o sentia por inteiro, queria ser tomada totalmente, deixá-lo me fazer ir à lua e voltar sem tirar os pés do chão. Não me continha nos gemidos, era impossível com tamanho tesão que sentia. Ele me pegava forte pelas pernas, fazia pressão, me tomava por completa. Eu em troca apertava suas coxas com força e logo me dava conta de que segurava com umas das mãos seu rosto e o apertava até chegar ao seu pescoço. Ele me chamava de diversos nomes vulgares, me fazia me sentir a mulher mais suja do mundo, mas o prazer que me proporcionava era incomparável. Ele me engrandecia, me entorpecia totalmente por dentro me fazendo pedir mais, me fazendo implorar para não parar.

O ápice vinha e voltava várias vezes, era como um demônio dentro de mim, me fazendo resistir a satisfação total naquele momento. Isso não me fazia querer parar, queria ir até o fim. Ele já me conhecia bem o suficiente para saber que aquilo estava acontecendo, sabia que eu estava quase lá, mas que meu corpo não estava à meu favor. Ele queria ir junto à mim, implorei para que não esperasse, para que gozasse dentro de mim, era o meu presente. E ele me deu.

Depois daquilo não queria que ele saísse de dentro de mim, a sensação ainda era maravilhosa, queria ele ali para sempre. Brinquei entre risos e apertos em sua coxa para não sair, porém saiu. Deitou-se ao meu lado e me tocou com ternura. Adentrou meu corpo com seus dedos me fazendo ir à loucura, fazendo eu me contorcer horrivelmente. Era bom, era realmente bom, mas era a única forma como conseguia reagir. Então, ele voltou a me tocar suavemente, com aqueles movimentos circulares no local exato onde ele sabia que eu adorava. Era incrível, me contorço apenas de pensar naquela sensação vinda dentro de mim e explodindo em suas mãos. Pois sim, quando ela veio, me agarrei em seu corpo e não o larguei, ele me chupava o pescoço e os seios e ali já havia perdido por alguns segundos os sentidos, mas ainda reagia ao seu toque suave.

Começamos a nos beijar novamente, percebi que ainda havia fogo naquele homem. Ele ainda me tocava forte e com vontade, com certeza não queria parar. Quando me dei por conta já estava colocada de quatro feito uma cadela, que era o que ele queria e eu mais ainda. Encaixou-se em mim com tamanha grandeza que mal pude conter os gemidos, ajudei-o com vigor a entrar cada vez mais forte em mim. Me dava belos tapas na bunda e puxava meus cabelos me chamando de cachorra, ordinária, vagabunda… Pode parecer que não, mas era o que eu queria ouvir.

Já sentia uma grande sensibilidade em minha região baixa, mas não queria que aquilo terminasse, queria ir até o fim novamente. Ambos já estávamos um tanto ofegantes, ele foi com calma mas ainda vibrante e forte. Quando me dei por conta, estava deitada em seu peito, ouvindo o quanto eu era maravilhosa e o quanto ele me queria. Minha vontade era de adormecer naquele exato momento, nua ao seu lado, sentindo seu suor se misturar ao meu, mas continuei beijando-o suavemente e quando notei estávamos falando sobre política.

Enfim, o fim

Meu lema até então era me manter quieta, firme. Guardar tudo o que eu sentia dentro de uma caixa à sete chaves e jogá-la na imensidão do oceano, na intenção de que nenhum ser a encontrasse e muito menos a abrisse. Minha caixa seria pior do que a de Pandora. Por incrível que pareça eu posso guardar os piores sentimentos. E não, não me orgulho disso, mas não consigo mais negar o que sinto.

No banco do motorista ele dirigia velozmente. Tentei firmar meu olhar na rápida passagem da estrada na lateral, evitando assim olhá-lo. Já estava escuro o suficiente para não conseguir desvendar o que havia em meio às imensas árvores à beira daquela estrada. Meus pensamentos iam longe, mas conseguia ver seu olhar me analisar a cada segundo que parecia durar uma eternidade. Eu tinha vontade de chorar, mas não conseguia. Me sentia seca por dentro, em todos os sentidos. Tinha vontade de firmar meu silêncio permanentemente, mas ao mesmo tempo tinha vontade de falar, de gritar, de jogar em cima dele tudo o que eu estava sentindo, tudo o que eu guardei durante aqueles longos anos.

Senti sua mão acariciar minha nuca, meu corpo respondeu se arrepiando inteiro, meu interior gritou ferozmente. Minha vontade era de responder à sua carícia, esquecer tudo aquilo e tentar recomeçar, mais uma vez. Mas eu não conseguia. Meu limite era aquele, as barreiras já haviam sido destruídas, mesmo assim meu amor continuava intacto. Isso fazia com que eu me odiasse. Era ele. Era ele quem eu desejava ardentemente todos os dias, todas as noites. Seu cheiro me envolvia como uma droga entorpecente, era impossível me controlar, mas eu precisava. Tudo o que eu queria é que aquele dia terminasse. Queria fechar os olhos e esquecer, dormir profundamente e não sonhar com nada. Mas era impossível me concentrar, seus olhos continuavam me seguindo, me contemplando, dizendo para que eu respondesse ao seu chamado, que pudesse perdoá-lo de novo.

Nós possuíamos um combinado e ele o quebrou pela milésima vez. Não aguentava mais voltar atrás, isso fazia eu me sentir fraca e totalmente manipulável. Eu entendo que o que fazia era mais forte do que sua própria vontade, mas pra mim já bastava. Apesar de tudo, eu precisava dele, precisava mais do que qualquer coisa. Era a minha base, meu alicerce. A voz que eu precisava ouvir para acalmar meu coração, para fazer minha respiração voltar ao normal e a paz reinar novamente.

A cada quilômetro que avançávamos era como se estivéssemos mais e mais longe. A estrada já estava totalmente vazia e passava apenas das sete da noite. Me sentei corretamente e fixei meu olhar nas faixas da estrada, mesmo assim, ainda via seus olhos correr meu corpo. Senti sua mão tocar minha coxa. Não fiz nada, me mantive parada, mal conseguia piscar. Via sua boca se mexendo mas não conseguia ouvir nada. Seus olhos se encheram d’água e as lágrimas caíam como uma cachoeira sem fim. Não conseguia sentir nada. Nada. Negava escutar o que meu coração dizia para fazer novamente. Bloqueei meus sentimentos bons, resgatei a caixa dos sentimentos ruins e os abri dentro de mim. Se olhasse em seus olhos tinha certeza de que desmoronaria sem pensar duas vezes, e não era isso o que eu queria.

Eu o amava. Na verdade ainda o amo, preferi guardar esse amor por tempo indeterminado. Preferi acabar com isso de uma vez. Esse dia preferi não chegar em casa e ouvir suas lamentações. Preferi tirar sua atenção e fazê-lo perder a direção. Preferi pôr um ponto final e mesmo que estivesse errada, já fiz. Acabou.

Crônicas de um ponto de ônibus #5 O velhinho de bicicleta

Tem coisas na vida que a gente aprende a dar valor depois que perde. Ou então, aprende a parar de reclamar depois que vê alguém com uma dificuldade muito maior que a nossa, e se sai melhor que nós mesmo assim. E é por este e por outros diversos motivos que eu adoro o transporte público, adoro a espera, adoro o observar do tempo e das pessoas que passam diante de mim, pois mesmo achando que nada acontece, continuo observando e encontrando motivos para me incentivar a ir à algum lugar mais longe ou fazer algo que deixei de lado.

Hoje, não tão tipicamente um dia de trabalho, já que é domingo, fiquei um bom tempo esperando o ônibus. Durante este tempo um velhinho surgiu de bicicleta do outro lado da avenida. A parte da ciclovia está há dias em obras, então alguns trechos encontram-se interditados, obrigando os ciclistas, e alguns pedestres, a desviarem seu caminho para seguir pela ciclovia. Eis que este velhinho para. Ok, ele parou para subir na ciclovia, já que não havia rampa. O momento em que ele começou a se movimentar já demonstrou alguns aspectos estranhos, pois tudo ele fazia lentamente, respirava, arrumava o boné e se mexia de novo. Só então quando ele finalmente saiu da bicicleta percebi que seu lado direito era paralisado. Acredito que tenha sido causa de algum AVC ou qualquer coisa do gênero que paralisa algumas partes do corpo. Com muito esforço, ele conseguiu fazer com que a bicicleta subisse a guia da ciclovia. O engraçado é que haviam várias pessoas no ponto de ônibus comigo, vi que todas observavam um tanto sorrateiramente, mas nenhuma se propôs a atravessar a avenida e ajudar o velhinho. Eu me senti um pouco mal, tive vontade de levantar e ajudar, mas talvez, se fizesse isso, poderia demonstrar que achava que o velhinho era incapaz de fazer aquilo sozinho. Talvez. Ele demorou um tempo para se ajeitar novamente e subir na bicicleta. Juro pra você que fiquei mega agoniada, com vontade de levantar e ajudá-lo, mas o esforço que o velhinho fazia era surpreendente, de se orgulhar mesmo. Imagino quantas coisas mais ele deve se esforçar tão bem pra fazer no dia-a-dia. Imaginei também o quanto eu fui reclamona quando lesionei meu joelho, o quanto me neguei subir escadas e ficar andando por sentir dor ou por ter medo de lesionar novamente. Imaginei que aquele velhinho poderia ter uma velhinha em casa, preocupada por ele ter saído de casa, de bicicleta, numa cidade – como muitas outras – onde o pedestre e o ciclista são pouco respeitados e até mesmo ignorados. E ele lá, com aquela deficiência, mas se esforçando ao máximo para conseguir voltar ao percurso.

Depois que ele subiu, arrumou os pedais e conseguiu colocar as duas pernas entre a bicicleta, ele fez uma espécie de exercício com o auxílio dos pedais, talvez para se acostumar novamente à rotina de pedalar que havia sido interrompida há quase cinco minutos atrás. As pessoas continuaram olhando, eu continuei olhando também, mas pensando. Pensando em mim, nele, numa suposta esposa preocupada, em filhos, netos, no motivo que causou aquela paralisia, não sei.

Ainda me pergunto por que reclamamos tanto se temos muito.