De repente

Todos os dias, desde que fui morar sozinha, eram iguais. Em todos os sentidos iguais.

Desde os 15 anos dizia aos meus pais que quando completasse os tão queridos 18 iria embora de casa, moraria em uma república feminina na capital e faria qualquer curso que envolvesse corte e costura. Confesso que nunca fui chegada à moda, mas gostava de fazer minhas próprias roupas e das minhas amigas.

Eis que fiz 18 anos, 19, 20, 21, e hoje 22 anos. Terminei a minha graduação em moda, trabalho em um ateliê na parte nobre da cidade desenhando e modelando. Consegui fazer tudo o que queria, mas sentia que ainda faltava algo. E nesse dia em que completei 22 anos acordei espontaneamente cedo e um pouco assustada por isso. Decidi que deveria ir caminhar, apesar da cidade não ser uma grande metrópole, ainda era uma cidade grande, mesmo assim, todos os dias ao caminho do trabalho via pessoas caminhando, passeando com seus animais de estimação e levando crianças para brincar nos playgrounds ao ar livre. Sempre me perguntei quando teria tempo, e principalmente coragem, para fazer tudo aquilo. Mas nesse dia eu tive.

Não me preocupei com o que estava vestindo, peguei um moletom, um tênis e fui. Andei do edifício onde moro até o parque em alguns minutos, dei algumas voltas, espalhei alguns “bom dia” e me deparei com um banco em frente ao pequeno lago do parque. Estava um pouco cansada, até porque, não estava acostumada com uma rotina distinta. Senti o sol tocar o meu rosto e minhas mãos, estava delicioso. Em um momento no qual não percebi, um rapaz havia sentado ao meu lado e dizia:

– Nunca vi você por aqui, e garanto que com essa roupa não iria esquecê-la.

Demorei um pouco pra entender o que ele quis dizer, e então reparei que estava parecendo uma melancia: a blusa do moletom era vermelha, a calça era verde e o tênis preto, estava realmente parecendo uma melancia.

– Não costumo fazer isso – disse a ele um pouco encabulada -, pelo visto você vem aqui todos os dias.

– Sim – ele respondeu entre um sorriso.

Ficamos um tempo em silêncio e quando ele estava prestes a se levantar disse:

– Você deveria fazer isso mais vezes, de verdade.

E eu só consegui responder:

– Sim, deveria mesmo.

Vi ele se distanciando e achei que era hora de voltar para casa, com certeza ele também foi pra sua e voltamos a nossa rotina normal, apesar de que aquela rotina parecia já ser a normal dele.

Meu dia até que foi tranqüilo: alguns – vários – parabéns, telefonemas, um bolo, algumas velas e velhos amigos.

Decidi fazer o mesmo no dia seguinte: levantei cedo, vesti um moletom – mas desta vez escolhi bem – e fui. Fiz o mesmo percurso e sentei no mesmo banco, parecia coisa de filme, pois quando menos esperei “ele” estava lá novamente:

– Murilo e você? – me perguntou como se fosse um “oi”.

– Melissa.

– Você gosta de torradas?

Achei engraçado e acabei rindo baixo.

– O que foi? Você não gosta de torradas? – Murilo perguntou-me.

– Adoro, só achei engraçada a forma que você perguntou, tão de repente.

Agradeço a Deus por aquele dia ser um sábado, pois ficamos horas conversando naquele banco em frente ao lago, sentindo o sol ficar mais quente com o passar do tempo. Parece engraçado, mas até hoje ele me chama de “menina melancia que adora torradas” e eu só consigo chamá-lo de “de repente”, pois foi de repente que ele apareceu na minha vida, foi de repente que eu decidi, justamente no meu aniversário, sair para caminhar, de repente ele me disse “oi” de uma forma diferente e de repente ele diz o quanto quer estar na minha vida.

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