Crônicas de um ponto de ônibus #2 O bêbado enganado de Americana

Trabalhar em frente à uma avenida que liga duas cidades já torna o trajeto mais complicado, principalmente quando a faixa de pedestres fica distante. Com toda loucura de sempre, seis da tarde, hora do rush, carros pra todo lado, ônibus mais que lotados e sempre as mesmas pessoas. Quer dizer… nem sempre.

Atravessar essa avenida é praticamente uma gincana. Você precisa esperar o semáforo fechar, depois, espera os carros que ultrapassaram o sinal amarelo e ainda espera os carros que vem da rua ao lado. Só então, você pode atravessar. Mas ainda há um porém: enquanto você atravessou calmamente a primeira pista, na segunda há vários carros parados esperando como loucos o semáforo abrir para saírem passando um por cima do outro. Então, depois do sinal abrir e todos os carros sumirem da pista, você pode atravessar. A situação chega a ser engraçada porque os semáforos tem um delay estranho e você, simplesmente, sai correndo como louco pra conseguir chegar ao outro lado com vida.

Neste dia em especial, calhou de haver um homem no ponto de ônibus. Até aí, tudo bem. Atravessamos como loucas – eu e duas amigas de trabalho -, uma delas já pegou sua condução e a outra ficou comigo esperando. Um pouco depois, aquele homem que estava sentado veio em nossa direção e então perguntou: “moças, qual ônibus vai pro canal 6?”, respondemos educadamente até ele pedir para pagarmos a passagem dele. Ficamos um pouco relutantes, ninguém disse nada, logo o drama começou: “moças, eu não tenho dinheiro e preciso ir pro canal 6. Eu tava trabalhando numa obra, porque eu não sou daqui, sou de Americana, só que os ‘caras’ foram embora e me deixaram aqui sem nada e eu preciso voltar pra lá.”

Esse pequeno discurso foi inteiramente dito por uma voz nem um pouco firme, dizendo mais diretamente: o homem estava bêbado. Por causa dele, a amiga que ficou comigo acabou perdendo o ônibus, mas logo veio outro e em seguida, veio um que o homem poderia pegar, então disse para ele falar com o motorista que talvez – mas é claro que não – poderia ajudar.

Fiquei até com medo, porque o motorista realmente não ajudou, e era provável que o homem voltasse a me importunar e eu estava sozinha. Sorte que ele viu alguns velhinhos mais à frente e foi pedir ajuda, mas acho que eles foram mais duros do que eu e então o homem seguiu em frente.

Agora, pense comigo: você ajudaria um homem bêbado? Até fiquei comovida com a situação dele, até ajudaria, mas ele estava bêbado e isso não justifica o fato dele estar precisando mais do que outra pessoa que, dignamente, poderia estar perdido e poderia ainda mais estar são.

Não creio que fui injusta. Não sou eu quem julga as atitudes das pessoas, principalmente das que eu não conheço. Mas acredito que se você está numa situação ruim e, principalmente, sem dinheiro, como irá ter condições para comprar bebida?

Talvez, de certa forma, eu tenha até feito uma boa ação. Pensando bem, a história dele poderia ser falsa, mas poderia ser verdade também. A questão é que por trás disso, sendo verdade ou mentira, há mais histórias. Se ele não estivesse bêbado essas histórias poderiam ser contadas.

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