Crônicas de um ponto de ônibus #6 Estragando despedidas

Uma das formas mais eficazes de se iniciar um diálogo com um estranho qualquer é pedir informação. Você está lá sozinho e de repente uma pessoa se aproxima e alguns minutos depois ela se vira para você, pede licença e então pergunta sobre alguma dúvida relacionada ao ônibus. Mas para algumas pessoas não basta apenas se saciar com a resposta do outro, a conversa não acaba no agradecimento, pois ela sente a necessidade de continuar, e nem sempre isso é bem vindo.

Eu nunca fui o tipo de pessoa mal educada, muito menos aquele tipo que responde com cara feia. Eu, muitas vezes, estou apenas acompanhada dos meus fones de ouvido, e geralmente, quando percebo que alguém se aproximou e movimentos labiais foram feitos, retiro os fones e digo “oi?” num tom para que a pessoa possa repetir o que disse. Mas nessa segunda-feira de férias, em que eu estava acompanhada do meu namorado, durante nossa conversa um senhor se aproximou e perguntou para qual terminal rodoviário nós estávamos indo. Respondi educadamente e ali encerraria o assunto, mas o homem continuou falando sobre o tempo perdido para ir de uma cidade para outra, sobre o trânsito, sobre as condições da nossa cidade, turismo, blablabla. Quando vi, meu namorado e ele estavam falando sobre política. Política não é um assunto que me interessa tanto, não é pelo fato de eu não ser patriota ou de eu não me importar com o que acontece o país, mas o fato é que quando vou à urna registrar meu voto eu tenho toda a consciência do mundo de para quem meu voto está sendo destinado. É claro que é um ato bacana você compartilhar pensamentos e opiniões, e fazer com que pessoas que tenham a cabeça fechada ou opiniões contrárias possam entender o nosso lado e até mesmo vir conosco, mas não numa segunda-feira de despedida, não enquanto eu estava com meu namorado.

O mais engraçado é que quando ele me leva ao ponto de ônibus para eu vir para casa, ultimamente, eu deixo passar pelo menos uns três ônibus até nós encerrarmos qualquer assunto que seja e daí então, finalmente, nos despedimos. E nesse dia, logo antes do senhor-falante-com-bafo-de-cerveja chegar, eu tinha deixado um ônibus passar por brincadeira. E justo no momento em que deixei passar, eu e meu namorado trocamos de lugar nos banquinhos do ponto, e foi justamente nessa maldita hora que o senhor se aproximou e sentou ao meu lado.

Eu não me importo com determinadas conversas ou com pessoas estranhas, mas me incomodo pelo fato do senhor que falava demais estar baforando constantemente aquele odor de cerveja na minha cara, e me incomodando mais ainda o fato dele cruzar e descruzar as pernas constantemente, e nessa meia ação acabar tocando a minha coxa e sempre pedir desculpas pelo ocorrido. Meu namorado percebeu e me puxou mais para perto, porém não adiantou. Lancei alguns olhares de reprovação para ele, para que encerrasse o assunto, mas naquela altura do campeonato seria impossível virar para o homem e dizer: “senhor, me desculpe, mas eu quero conversar com a minha namorada”. Eu já estava furiosa, e a cada minuto desejava que o ônibus viesse logo, pois não bastasse o bafo de cerveja o homem ainda acendeu um cigarro, ele foi educado me perguntando se eu me importava, mas eu iria dizer o quê? “Sim, eu me importo, me importo mais ainda pelo senhor não calar essa maldita boca.” Mas, voltando: eu sou educada. Suspirei fundo, olhei a paisagem, desliguei meu cérebro a ponto da conversa entre eles entrar e sair pelos meus ouvidos sem causar transtorno algum.

E num passe se mágica, praticamente milagroso, o ônibus apontou, e por incrível que pareça, o homem não parava de falar e não se tocava de que eu queria me despedir do meu namorado. Fingi que não estava ouvindo e nem vendo nada, e então abracei e beijei meu namorado. Ele sussurrou no meu ouvido “se arrependeu de não ter pegado o ônibus, né?”, ri e afirmei, era totalmente verdade, embora minha intenção fosse apenas ficar um pouco mais com ele. A questão é que, quando me virei, o homem continuou falando e então meu namorado falou: “amor, eu te amo, viu?”. Nós estamos namorando há pouco tempo, mas é como se fossem milhares de anos, e aquela foi a primeira vez que ele proferiu aquelas palavras para mim. E o pior de tudo: aquele homem estranho e idealista não calava a boca e eu não consegui responder nada, simplesmente nada. Sim, eu fiquei sem ação, ainda estava furiosíssima, e tinha sido uma das nossas “primeiras vezes”, e na frente de um estranho ainda por cima, o que eu poderia dizer? Eu sei que deveria ter respondido de volta, era uma das coisas que eu queria ter dito há tempos, mas não daquele jeito, não naquela situação.

A questão é que às vezes as pessoas querem conversar, trocar ideias, mas não conseguem abrir os olhos e enxergar o que está acontecendo à volta naquele momento, que geralmente é o que pode ou não definir se você deve ou não iniciar um diálogo com uma pessoa estranha.

Um comentário sobre “Crônicas de um ponto de ônibus #6 Estragando despedidas

  1. Samara Lopes disse:

    Nem fale Sammy, sempre tem essas pessoas que parecem não enxergar nada além delas mesmas. Agora, se eu fosse você, eu teria sido grossa na parte do cigarro. Não tenho paciência. Uma coisa que não suporto de jeito nenhum é cigarro.
    Pô, as suas crônicas de um ponto de ônibus são ótimas (dei uma olhadinha rápida nas outras). Falta as crônicas dentro de um ônibus kkkk (a gente já passou por algumas que merecem destaque kkk).

    Não resisti e te copiei (mentira). Fiz um blog pra mim onde vou escrever minhas histórias. Preciso criar vergonha na cara e parar de só ver idiotice no facebook kkk
    Beijos! =*

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