Enfim, o fim

Meu lema até então era me manter quieta, firme. Guardar tudo o que eu sentia dentro de uma caixa à sete chaves e jogá-la na imensidão do oceano, na intenção de que nenhum ser a encontrasse e muito menos a abrisse. Minha caixa seria pior do que a de Pandora. Por incrível que pareça eu posso guardar os piores sentimentos. E não, não me orgulho disso, mas não consigo mais negar o que sinto.

No banco do motorista ele dirigia velozmente. Tentei firmar meu olhar na rápida passagem da estrada na lateral, evitando assim olhá-lo. Já estava escuro o suficiente para não conseguir desvendar o que havia em meio às imensas árvores à beira daquela estrada. Meus pensamentos iam longe, mas conseguia ver seu olhar me analisar a cada segundo que parecia durar uma eternidade. Eu tinha vontade de chorar, mas não conseguia. Me sentia seca por dentro, em todos os sentidos. Tinha vontade de firmar meu silêncio permanentemente, mas ao mesmo tempo tinha vontade de falar, de gritar, de jogar em cima dele tudo o que eu estava sentindo, tudo o que eu guardei durante aqueles longos anos.

Senti sua mão acariciar minha nuca, meu corpo respondeu se arrepiando inteiro, meu interior gritou ferozmente. Minha vontade era de responder à sua carícia, esquecer tudo aquilo e tentar recomeçar, mais uma vez. Mas eu não conseguia. Meu limite era aquele, as barreiras já haviam sido destruídas, mesmo assim meu amor continuava intacto. Isso fazia com que eu me odiasse. Era ele. Era ele quem eu desejava ardentemente todos os dias, todas as noites. Seu cheiro me envolvia como uma droga entorpecente, era impossível me controlar, mas eu precisava. Tudo o que eu queria é que aquele dia terminasse. Queria fechar os olhos e esquecer, dormir profundamente e não sonhar com nada. Mas era impossível me concentrar, seus olhos continuavam me seguindo, me contemplando, dizendo para que eu respondesse ao seu chamado, que pudesse perdoá-lo de novo.

Nós possuíamos um combinado e ele o quebrou pela milésima vez. Não aguentava mais voltar atrás, isso fazia eu me sentir fraca e totalmente manipulável. Eu entendo que o que fazia era mais forte do que sua própria vontade, mas pra mim já bastava. Apesar de tudo, eu precisava dele, precisava mais do que qualquer coisa. Era a minha base, meu alicerce. A voz que eu precisava ouvir para acalmar meu coração, para fazer minha respiração voltar ao normal e a paz reinar novamente.

A cada quilômetro que avançávamos era como se estivéssemos mais e mais longe. A estrada já estava totalmente vazia e passava apenas das sete da noite. Me sentei corretamente e fixei meu olhar nas faixas da estrada, mesmo assim, ainda via seus olhos correr meu corpo. Senti sua mão tocar minha coxa. Não fiz nada, me mantive parada, mal conseguia piscar. Via sua boca se mexendo mas não conseguia ouvir nada. Seus olhos se encheram d’água e as lágrimas caíam como uma cachoeira sem fim. Não conseguia sentir nada. Nada. Negava escutar o que meu coração dizia para fazer novamente. Bloqueei meus sentimentos bons, resgatei a caixa dos sentimentos ruins e os abri dentro de mim. Se olhasse em seus olhos tinha certeza de que desmoronaria sem pensar duas vezes, e não era isso o que eu queria.

Eu o amava. Na verdade ainda o amo, preferi guardar esse amor por tempo indeterminado. Preferi acabar com isso de uma vez. Esse dia preferi não chegar em casa e ouvir suas lamentações. Preferi tirar sua atenção e fazê-lo perder a direção. Preferi pôr um ponto final e mesmo que estivesse errada, já fiz. Acabou.

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