Crônicas de um ponto de ônibus #5 O velhinho de bicicleta

Tem coisas na vida que a gente aprende a dar valor depois que perde. Ou então, aprende a parar de reclamar depois que vê alguém com uma dificuldade muito maior que a nossa, e se sai melhor que nós mesmo assim. E é por este e por outros diversos motivos que eu adoro o transporte público, adoro a espera, adoro o observar do tempo e das pessoas que passam diante de mim, pois mesmo achando que nada acontece, continuo observando e encontrando motivos para me incentivar a ir à algum lugar mais longe ou fazer algo que deixei de lado.

Hoje, não tão tipicamente um dia de trabalho, já que é domingo, fiquei um bom tempo esperando o ônibus. Durante este tempo um velhinho surgiu de bicicleta do outro lado da avenida. A parte da ciclovia está há dias em obras, então alguns trechos encontram-se interditados, obrigando os ciclistas, e alguns pedestres, a desviarem seu caminho para seguir pela ciclovia. Eis que este velhinho para. Ok, ele parou para subir na ciclovia, já que não havia rampa. O momento em que ele começou a se movimentar já demonstrou alguns aspectos estranhos, pois tudo ele fazia lentamente, respirava, arrumava o boné e se mexia de novo. Só então quando ele finalmente saiu da bicicleta percebi que seu lado direito era paralisado. Acredito que tenha sido causa de algum AVC ou qualquer coisa do gênero que paralisa algumas partes do corpo. Com muito esforço, ele conseguiu fazer com que a bicicleta subisse a guia da ciclovia. O engraçado é que haviam várias pessoas no ponto de ônibus comigo, vi que todas observavam um tanto sorrateiramente, mas nenhuma se propôs a atravessar a avenida e ajudar o velhinho. Eu me senti um pouco mal, tive vontade de levantar e ajudar, mas talvez, se fizesse isso, poderia demonstrar que achava que o velhinho era incapaz de fazer aquilo sozinho. Talvez. Ele demorou um tempo para se ajeitar novamente e subir na bicicleta. Juro pra você que fiquei mega agoniada, com vontade de levantar e ajudá-lo, mas o esforço que o velhinho fazia era surpreendente, de se orgulhar mesmo. Imagino quantas coisas mais ele deve se esforçar tão bem pra fazer no dia-a-dia. Imaginei também o quanto eu fui reclamona quando lesionei meu joelho, o quanto me neguei subir escadas e ficar andando por sentir dor ou por ter medo de lesionar novamente. Imaginei que aquele velhinho poderia ter uma velhinha em casa, preocupada por ele ter saído de casa, de bicicleta, numa cidade – como muitas outras – onde o pedestre e o ciclista são pouco respeitados e até mesmo ignorados. E ele lá, com aquela deficiência, mas se esforçando ao máximo para conseguir voltar ao percurso.

Depois que ele subiu, arrumou os pedais e conseguiu colocar as duas pernas entre a bicicleta, ele fez uma espécie de exercício com o auxílio dos pedais, talvez para se acostumar novamente à rotina de pedalar que havia sido interrompida há quase cinco minutos atrás. As pessoas continuaram olhando, eu continuei olhando também, mas pensando. Pensando em mim, nele, numa suposta esposa preocupada, em filhos, netos, no motivo que causou aquela paralisia, não sei.

Ainda me pergunto por que reclamamos tanto se temos muito.

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